My name is Cachaça

*   Guilherme Cardoso

Meu nome de batismo é Aguardente, “mulher da vida”, chamada de Pinga.

Já tive muitos amores, paixão de gente inocente, sem esperanças, pobres, escravos.

 

Fui prazer para cachaceiros e pinguços.

Amada e amante de muitos homens, atores, poetas e jornalistas.

 

Fonte de desejos, paixões e inspirações, já fui tema de muitas canções que falavam de dor e de amor.

Casei-me diversas vezes, tive muitos filhos, vários infelizes.

Separei-me outras tantas, ganhei muito dinheiro, causei imensas desgraças.

 

O tempo foi passando, fiquei “mais velha”, guardei os remorsos no armário, juntei saudade, experiência e sabedoria, usei do que fui, aprendi o que sei, consegui transformar minha vida.

 

Hoje estou de “cara nova”, mudei de roupa e de teto.

Não sou mais “mulher-à-toa”, me juntei com gente honesta, conquistei novos amigos.

E até mudei de nome. Já me chamo só “Cachaça”.

 

Agora tenho “nome legal” dado por Lei, sou artigo de “qualidade”, pareço até moça fina.

 

Tenho um “corpo bem tornado”, mais bonito, sou boa menina.

Sou mais educada, respeito minha gente, falo muitos idiomas e frequento altas rodas.

 

Os jovens, rapazes e moças, todos falam bem de mim.

Convivemos amistosamente, tomamos alguns goles juntos nos bares e baladas, não tem essa de exageros.

 

Meu nome circula nos bares, restaurantes e supermercados, sem temor ou preconceito. Onde tem gente famosa eu estou sempre com eles, agora não tem mais jeito.

 

Viajo para todos os cantos, em vôos de 1ª classe.

 

Nos países aonde vou, sempre sou bem recebida.

Londres, Roma, Frankfurt, Paris, New York e Hong Kong, tenho onde me hospedar.

 

Até na Escócia, terra do Whisky, estive lá para observar.

Em feiras, cursos e concursos, minha presença é sempre exigida.

 

Hoje posso dizer, já não sou filha enjeitada, tenho nome e sobrenome, família e proteção.

 

Carrego na identidade o nome de “Cachaça do Brasil” e levo uma vontade enorme de vencer e o desejo de tornar o nosso povo mais alegre, rico e bonachão.

  • Crônica publicada originalmente em 23/05/2005, quando a Cachaça recebeu esse nome por Decreto Lei do Governo de Minas.

 

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