Meu “velho” pai


Hoje ele, o meu pai, estaria com 117 anos. Faleceu aos 69 anos. Tanto tempo depois, e quanta saudade ainda.

Lembro dele agora, sempre de chapéu, ficou calvo muito cedo, como eu. Fumava bastante, tomava uma pinguinha no almoço e no jantar, e quando ficava gripado, misturava com a folha de assa-peixe, remédio certo para não adoecer.

Adorava um bom papo, tinha uma risada fácil, lia jornal todo dia, Ignácio o filho e mais tarde o genro Miguel traziam o Diário Tarde pra casa. Gostava de notícias no rádio. Era um mestre em contar casos e causos, os de assombração faziam a gente morrer de medo e à noite ir dormir na sua cama.

Aos domingos após a missa das 10 da manhã, era procurado para um papo pelos jovens meus amigos na porta da Igreja N.S.do Rosário de Pompéia. Diziam que parecia com Gary Cooper, popular ator americano dos filmes de faroeste. Ele não levava a sério a comparação, mas eu ficava orgulhoso, pois aquele ator era um ídolo para nós daquela geração.

Antenor Cardoso Dias o seu nome. Um homem sonhador para a sua época. Rico durante alguns anos em Nova Lima, veio para BH ficou pobre, ficou viúvo aos 49 anos, criou os filhos na marra, nunca perdeu a fé em dias melhores. Hoje, seus filhos agradecem.

Nas décadas de 40 e 50 foi vendedor de bilhetes de loterias, morávamos no bairro Pompéia, seu caminho e parada obrigatória para conversar com os amigos era a travessia da linha férrea que separava o bairro de Santa Tereza. Era a Ponte do Cardoso.

Durante anos, antes da via expressa e do metrô, quem vinha de Santa Tereza atravessava a linha de trem e passava por uma ponte em cima do rio Arrudas. Ficou conhecida como Ponte do Cardoso por causa do apelido do meu pai, senhor Cardoso.

Os tempos passaram, a região se transformou, ganhou melhorias, fizeram um viaduto no mesmo lugar, atravessando rio e a Av.dos Andradas, com o nome de José Maria Torres Leal. Apagaram a memória da Ponte do Cardoso, ali.

A lembrança dele, do meu pai, esta nunca vai acabar.

 

 

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