Mais lembranças: Natal de 1960

É Natal, ano de 1960.Caminho pelas ruas da cidade de Belo Horizonte olhando as vitrines das lojas. Era o programa favorito e especial das pessoas, a maioria pobres, sem muito poder de consumo. Eu era uma delas.

Saio do trabalho, Casa Abreu, atual Centro Ótico, na Avenida Afonso Pena esquina de Rua São Paulo, sigo em direção à Rua da Bahia. Vejo o Banco da Lavoura na Praça Sete, esquina de Tamoios com Afonso Pena o Lavourinha, onde os pais depositavam a poupança das crianças. Observo os lançamentos sofisticados de óculos da Ótica Rochester, dá vontade de entrar na Lanchonete Odeon, meu irmão trabalhou nela, não tenho dinheiro, a casa de balas e chocolates Kopenhagen ao lado do cine Acaiaca é um desejo, quase um sonho, haja salário de um mês inteiro.

Lado de fora da Igreja de São José, sempre após as missas das sete da noite, acontece o footing, o desfile das moças solteiras à procura de um namorado. Os rapazes, maiores de 18 anos, ficam de pé, enfileirados olhando as moças passarem, oferecendo a cada uma os mais românticos gracejos. Não havia ainda o bullying, o desrespeito com o sexo oposto.

Lojas de departamentos, que vendiam de tudo em cada andar, eram a Casa Guanabara, depois a  Inglesa Levy, a Mesbla, na Rua Curitiba com Afonso Pena. Roupas masculinas se comprava na Casa Rolla, Magazin Nacional, Lojas Ducal. Tecidos e roupas de cama, as senhoras compravam na Casa da Sogra, na Brasiliana, vestidos finos e luxuosos na Casa Sloper.

Estabelecimentos bancários da cidade eram o Crédito Real, o Lavoura, o Nacional, o Mineiro da Produção, o Banco Mineiro do Oeste, o Moreira Salles e o Banco Agrícola e Mercantil do Rio Grande do Sul, para onde fui trabalhar em 1961.

Penso em comprar um presente para mim, o dinheiro não dá para os outros, entro na Sapataria Americana, Tupinambás com Afonso Pena, compro um Passo Doble, solado de borracha, que dura até o pé acabar. O troco não dá para comer um Kaol no Café Palhares, apenas um sanduíche no Restaurante Pinguim. Rua Espírito Santo, quase com Caetés.

Volto pra casa, Bairro Pompeia, último ônibus às 23 horas, Rua da Bahia ao lado do Parque Municipal. Onde moro, Rua Silvio Romero, só havia luz elétrica, faltava água encanada, televisão era inacessível, futebol e novelas, Direito de Nascer, O Santo e Jerônimo, eram pelo rádio de cabeceira e de válvulas.

Meia Noite tinha Missa do Galo, mensagem era da Varig, Natal era o Menino Jesus, arroz, feijão, frango frito. Orações e esperança em dias melhores.

Leave a comment

Your email address will not be published.


*