Lembrando Osmar José Ganz

O ano era 1964, quanto tempo atrás, e como as coisas eram tão diferentes! E como a vida era tão simples, difícil, mas sem grandes ambições e contradições. Pobre era pobre, admitia isto, trabalhava para melhorar. Não se cobiçava, nem roubava os ricos. Família era Pai e Mãe, Escola era o segundo lar, meninos eram meninos, brincavam de bola, carrinhos, até brigavam na rua. Meninas brincavam de casinha, de roda, de passar anel, tinham bonecas, gostavam de copiar as mães. Não havia dúvidas de Gênero.

Ninguém ouvia falar de preconceito, discriminação, racismo e homofobia. E não havia a violência dos dias atuais. A gente, ainda adolescentes, quase adultos, tinha medo era de assombração. Era o tempo de amarrar cachorro com linguiça. Quanta saudade.

“Sabes jogar futebol, chê? Domingo tem jogo”. Quis saber Arante da Costa Lyra, gaúcho e Contador, na pergunta principal do questionário para ser admitido no Banco Agrícola Mercantil do Rio Grande do Sul. O Banco tinha uma equipe e participava do Campeonato Bancário de MG. Eu tinha 18 anos e adorava futebol.

Ser bancário nos anos 60 era como ganhar na Mega Sena ou  ser concursado hoje em um cargo no Judiciário brasileiro. Bom salário, vantagens e estabilidade.

Comecei no Banco como office-boy, entregando duplicatas nos endereços dos clientes.Com três meses, fui promovido, por eficiência e por ser bom atleta, e de cara fui para a seção de Controle e Lançamentos Bancários, cujo chefe era o mais temido, sujeito de pouca conversa e superexigente, com as tarefas e com o comportamento das pessoas.

Osmar José Ganz, devia ter uns 22 anos, primava pela elegância no vestir. Fumava muito e reclamava de problemas pulmonares. Os funcionários eram obrigados a vestir calça preta e camisa branca, de manga comprida, modelo Volta ao Mundo. Ele, como chefe, sempre de terno e gravata e os sapatos pretos engraxados e brilhando de expandir raios. Éramos quatro sob o seu comando. Geraldo Dias, as irmãs Norma e Wilma e eu.

Os defeitos do Osmar para alguns, na realidade eram virtudes para outros. Era supereducado e centrado no que fazia. Diferente dos demais chefes. Incomodava porque exigia um bom trabalho, cumprimento de horários, nada de conversas desnecessárias no expediente, e que seus funcionários não agredissem a língua portuguesa ao escrever algum texto ou mensagens aos clientes ou aos diretores do Banco. Nisso ele era exigente e até chato, fazendo com que o errático reescrevesse o texto tantas vezes até acertar. Muitos não gostavam. Achavam ser arrogância.

Ele lia muito, era mestre no idioma português. E não deixava por menos. Por pensar igual, eu me dava bem com ele. Por sua causa, além das minhas funções, passei a ser o escriba oficial da agência, e era requisitado a redigir e datilografar todas as correspondências para os clientes e os diretores na matriz em São Paulo, sempre com a chancela “De acordo” do Osmar José Ganz.

Acabei sendo seu melhor amigo no Banco. Conversávamos por horas depois do expediente sobre assuntos do Banco. Raramente sobre sua vida pessoal. Ao deixar o Banco, fiquei no seu cargo.

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