* Guilherme Cardoso
Ah, tenho que escrever, falar, resmungar. Mesmo sabendo que minha voz não tem alcance, não é importante. Meus artigos ficam no blog, quando muito chegam por e-mails até alguns amigos e colegas. É minha forma de protestar, de indignar com o que andam fazendo e deixando de fazer os nossos políticos, o Governo e as autoridades deste país.
Estados Unidos, janeiro de 2007. Os bispos Sônia e Estevam Hernandes são presos no aeroporto de Miami, entrando no país com US$56 mil dólares sem declarar ao fisco. Algemados, presídio, uniforme listrado, apresentados à Corte, cinco meses reclusos, confissão de culpa, pagamento de multas e fianças. Justiça rápida.
Dezembro de 2009, cidade de São Paulo, Brasil. Justiça Federal condena casal Sônia e Estevam Hernandes, bispos da Igreja Renascer a quatro anos de reclusão por evasão de divisas. Motivo: os mesmos US$56 mil dólares pegos nos Estados Unidos. No despacho, o juiz Fausto De Sanctis determina que a pena seja transformada em prestação de serviços e que os réus permaneçam em liberdade. O casal ainda diz que vai recorrer. Justiça capenga.
Duas sentenças para um mesmo crime, com dois resultados completamente diferentes. Lá, a rapidez, a eficiência a resposta imediata. Aqui, a protelação, a enrolação, a enganação, a demora, a impunidade. Um condena e pune. Outro faz de conta, condena, não pune, solta.
Difícil agüentar tanta corrupção no Brasil e tanta impunidade ao mesmo tempo. Não passa uma semana sem que um novo escândalo apareça nas telas da tevê. É Mensalão, Mensalinho, Castelogate, Farra das Passagens, Nepotismo, dinheiro, na cueca, no traseiro e dentro das meias. Tudo documentado, gravado com imagens, sons e legenda.
No Brasil, acusado jura não ser ele, tudo é mentira, montagem, perseguição de inimigos. Muita cara de pau! Presidente ajuda o corrupto, precisa do seu apoio, amanhã o acusado pode ser ele, imagem do crime não é tudo, tem que aguardar investigações, Supremo é quem diz se há culpados. Até prescrever o crime, cair no esquecimento.
Se fosse Japão, China, ou algum país oriental, empresário, político, autoridade qualquer, apanhados em delito grave, corrupção, desvio de conduta, assume, confessa, é punido, às vezes se mata. De vergonha do seu cliente, compatriota ou eleitor.
Aqui, tudo diferente. No País da Fantasia, do faz de conta, do futebol, do samba, das mulheres peladas, os criminosos matam, recebem indulto, quase não ficam na cadeia. Bandidos se elegem para esconder de crimes, roubam desviam dinheiro público, viram deputados, senadores, governadores, negam mesmo com provas, Justiça aceita, não condena. Quando o faz, Supremo solta, dá habeas corpus, direito de recorrer, se for rico, algum prestígio, não fica preso. Aguarda em casa.
Cadê mobilização, revolta, passeatas, de estudantes, trabalhadores, artistas, sindicatos, federações, associações, igrejas? Como nos tempos da ditadura. Não se vê mais. Onde estão as cabeças bem formadas e informadas, intelectuais, artistas, profissionais liberais de diversas atividades que não aparecem para liderar um movimento de mudanças nesse país?
Se procurarmos, é bem provável que a esta hora, nove da noite, estejam todos em casa, de pijama, na poltrona, vendo noticiários e novelas. Como eu, que protesto, apenas escrevendo.
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